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Do requisito vago ao plano que se revisa

Quando a IA concorda com você e isso é um problema

Armadilha 6 min de leitura

Assistentes tendem a acompanhar a sua premissa. Como escrever o pedido para receber discordância útil em vez de eco.

Você pergunta "faz sentido usar uma fila aqui?" e recebe uma explicação convincente de por que faz. Pergunta o contrário na conversa seguinte e recebe uma explicação igualmente convincente de por que não.

Ao final desta aula você consegue
  • Reconhecer quando a resposta está seguindo a sua premissa em vez de avaliá-la.
  • Formular perguntas que não carregam a resposta esperada.
  • Usar o assistente para atacar a própria ideia, não só para defendê-la.

Modelos são ajustados para serem úteis e agradáveis, e isso produz um viés: acompanhar o enquadramento de quem pergunta. Não é bajulação no sentido humano — é o resultado previsível de treinar para respostas bem avaliadas. Mas o efeito prático é o mesmo: a sua premissa errada volta confirmada e mais bem argumentada do que quando saiu.

Para decisão de arquitetura, isso é caro. É exatamente a fase em que você mais precisa de contradição e menos vai recebê-la, se perguntar do jeito errado.

Pergunta que carrega a resposta
Estou pensando em usar uma fila para processar as exportações,
assim a requisição não trava. Faz sentido?

Vem uma boa defesa da fila. A opção de simplesmente otimizar a consulta e resolver em 800 ms nunca é considerada.

Pergunta que pede a comparação
Preciso resolver: exportação de relatório que hoje leva 40s e estoura o timeout de 30s.
Volume: até 200 mil linhas. Time de 3 pessoas, sem infra de fila hoje.

Apresente 3 caminhos possíveis, incluindo o mais simples.
Para cada um: o que resolve, o que quebra, custo de manutenção e o que
precisaria ser verdade para ele ser a melhor escolha.
No final, diga qual você NÃO recomendaria e por quê.

Vem fila, vem otimização da consulta com índice, vem paginação do PDF — e o custo de operar fila num time de três pessoas aparece.

A diferença: A segunda versão descreve o problema e não a solução pretendida. E a última linha força um posicionamento negativo, que é onde o viés de concordância mais atrapalha.

Três formulações que quebram o eco

FormulaçãoPara que serve
"Apresente 3 caminhos, incluindo o mais simples, e diga qual não recomendaria"Evita que a sua opção preferida seja a única avaliada
"Argumente contra esta decisão como se você fosse revisar meu RFC"Troca o papel: de assistente para revisor
"O que precisaria ser verdade para esta escolha estar errada?"Expõe as premissas em vez dos benefícios
O advogado do diabo
Vou te dar uma decisão técnica que já tomei. Seu papel NÃO é melhorá-la.
Seu papel é atacá-la.

Decisão: [descreva]
Contexto: [cole o CONTEXT.md]
Motivo que me levou a ela: [seu raciocínio]

Devolva:
1) As premissas que a decisão assume sem eu ter verificado
2) Em que cenário concreto ela falha primeiro
3) O que custaria caro desfazer se eu estiver errado
4) Qual alternativa mais simples eu descartei sem justificar
5) Uma pergunta que eu deveria responder antes de seguir

Não suavize. Se a decisão for razoável, diga isso em uma linha e ainda assim liste os itens acima.

A última linha evita o efeito inverso: um assistente instruído a atacar às vezes inventa problemas para cumprir a tarefa.

ArmadilhaO inverso também acontece

Se você insistir que algo está errado quando não está, muitos assistentes recuam e "concordam" com a correção equivocada. Dizer "tem certeza?" depois de uma resposta correta costuma produzir uma reformulação pior.

A leitura útil: mudança de resposta após pressão não é sinal de que a primeira estava errada. Use evidência — rode o código, leia a documentação — em vez de repetir a pergunta com mais ênfase.

Como perceber: Você perguntou "tem certeza?" e a resposta mudou sem nenhum dado novo ter entrado na conversa. Isso é o viés operando, não um insight.

Onde isso importa mais

Em código pequeno, o viés de concordância custa pouco: o teste desempata. Em decisão de arquitetura, escolha de dependência e modelagem de dados, ele custa meses — porque não há teste que desempate e o erro só aparece quando já é caro mudar.

Checagem antes de seguir
  • A pergunta descreve o problema, não a solução que eu já escolhi.
  • Pedi pelo menos três caminhos, incluindo o mais simples.
  • Pedi explicitamente o que não recomendaria.
  • Nenhuma mudança de resposta foi aceita sem dado novo.
Em uma frase
  • Se você entrega a conclusão junto com a pergunta, recebe a sua própria conclusão de volta, mais bem escrita.

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