Caso real: a triagem que eliminou os melhores candidatos
Uma vaga de analista com 380 candidatos, triagem assistida, e a descoberta feita três meses depois de contratar.
A vaga recebeu 380 candidaturas em duas semanas. A triagem assistida reduziu para 24 em uma tarde. Contratou-se em três semanas — um recorde para a empresa. Três meses depois, a pessoa contratada pediu demissão e a área descobriu o que tinha acontecido.
- Reconhecer o efeito de ranquear por texto em vez de por competência.
- Ver como um bom candidato é eliminado por escrever mal o currículo.
- Aplicar a verificação de amostra reversa.
Como a triagem foi feita
Analise os currículos anexos e ranqueie os 380 candidatos por
aderência à vaga de Analista de Controladoria Sênior. Dê uma
nota de 0 a 100 para cada um e liste os 25 melhores.
[380 currículos colados]A lista dos 25 veio ordenada, com notas de 94 a 78, e uma justificativa de duas linhas para cada. Parecia rigoroso. E foi aceita sem revisão porque o formato transmitia rigor.
O que a área descobriu depois
Quando a pessoa contratada saiu, o gestor pediu para reabrir a lista. Uma analista do time decidiu ler, à mão, 40 currículos sorteados entre os 355 eliminados. Achou quatro pessoas que, pelos critérios da vaga, deveriam ter avançado.
| Candidato eliminado | Por que caiu | O que tinha |
|---|---|---|
| A | Currículo em tópicos secos, sem adjetivos | Construiu do zero o modelo de custos de uma operação maior que a nossa |
| B | Experiência descrita por ferramenta, não por resultado | 6 anos exatamente no processo da vaga, em outro setor |
| C | Currículo de uma página, sem seção de "perfil" | Reduziu fechamento de 6 para 2 dias — mencionado em uma linha |
| D | Formação em instituição pouco conhecida | Única pessoa com experiência no ERP que a empresa usa |
Nenhum dos quatro foi eliminado por falta de competência. Todos foram eliminados por como escreveram o currículo.
É o mecanismo previsível de ranquear texto: o modelo pontua o documento, não a pessoa. Quem escreve currículo com vocabulário de RH — "profissional orientado a resultados, com sólida vivência em..." — pontua alto. Quem escreve seco pontua baixo, mesmo tendo feito mais.
E o viés tem direção: escrever currículo no dialeto de RH é uma habilidade que se aprende em ambientes específicos. Ranquear por texto favorece quem teve acesso a esse ambiente.
"Ranqueie os 380 candidatos por aderência e me dê os 25 melhores."
Produz uma ordem sobre 380 documentos comparados entre si, com nota que parece objetiva. Nada disso é sobre a vaga.
"Para CADA trajetória, responda apenas: Competência 1 (montar modelo de custos do zero): há evidência? [sim / não / não dá para saber pelo texto] qual trecho sustenta? Competência 2 (SQL para extração): [mesma coisa] Não compare candidatos entre si. Não dê nota. Não ranqueie. Se não houver evidência no texto, responda 'não dá para saber' — isso NÃO é um não."
Devolve evidência por competência, com o trecho. "Não dá para saber" vira pergunta na entrevista em vez de eliminação.
A diferença: A categoria "não dá para saber pelo texto" é a que salva os quatro candidatos do caso. Sem ela, ausência de evidência vira ausência de competência — e currículo curto vira candidato ruim.
A verificação de amostra reversa
A prática que a analista improvisou virou processo na empresa: sortear 20 a 40 eliminados e ler à mão. Se aparecer alguém que deveria ter passado, o critério está errado — e você descobre antes de contratar, não três meses depois.
Custa uma hora. É a única forma de auditar uma triagem, porque os aprovados você vai ver de qualquer jeito e os eliminados nunca mais.
Um "87/100" transmite uma precisão que não existe. Ninguém questiona um número; todo mundo questionaria "achei esse currículo interessante".
Se você precisa de nota, que ela seja por competência, na escala definida antes, com o trecho que a sustenta. Nota global de aderência não significa nada e impede a discussão.
Como perceber: Você não consegue explicar a diferença entre um 78 e um 82.
- A triagem avalia competência a competência, não aderência global.
- Existe a categoria "não dá para saber pelo texto".
- Nenhuma nota global foi usada para cortar.
- Toda avaliação cita o trecho que a sustenta.
- Uma amostra de eliminados foi lida à mão.
- Ranquear currículos pontua o documento, não a pessoa — e escrever currículo bem é uma habilidade de classe.
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